23 março, 2009

Por detrás de minhas máscaras


Naquela noite que parecia sem fim, notícias ruins acumulavam-se no ar. Não me julgue pela minha resposta instantânea ou reação inesperada, o dia que tive não foi dos melhores. Tenhas certeza que mal desejo para alguns, mas para ti, nunca. Não te desesperes por minhas respostas monossilábicas e frases secas, eu sou assim em algumas ocasiões e, quase sempre, sem explicação.
Não te atormentes pelo que penso ou sinto, sou egoísta demais, o que te dá o direito de seres comigo também, mas tenho certeza que não serás. Acho que a palavra conformismo foi mal usada e um pouco exagerada, digamos que acostumar fica melhor colocada.
Entendas que às vezes sou irracional e desumano, maneira de esconder o quão frágil posso ser por dentro, o quanto de falar que não sinto, sinto duas vezes mais. Não acredites naquele “Eu” que diz que nunca amou ou irá amar, talvez ame ou já tenha amado, mas ainda não hei descoberto.

Gabriel Vitor Tortejada

18 março, 2009

Timidez

Falta-me impulso.
Seus olhos e gestos flertam comigo,
Implorando por algumas palavras.

Vontade não falta,
Observar já se torna incômodo,
Volta o antigo problema da maldita timidez.

O meu silêncio se revolta querendo cessar,
Minha boca gritar
E os olhos cerrar.

Não acho justo o jeito que sou,
Como me tornei?
Não sei,
Mas mudar se torna mais difícil do que imaginar.

Tem vezes que penso na outra.
O que ela mudou em mim?
Por que não posso repetir o que já fiz?
Se conhecer não é difícil,
Pergunto-me porque não consigo.

Acho interessante como sou.
Não importa onde ou como,
Não importa como pensarei,
Mas encontro sempre maneiras de me torturar.

Gabriel Vitor Tortejada

11 março, 2009

Tédio

Ah! Que vontade da morte.
Como o tédio corrói.
Invade cada pedaço meu de paciência
E me agoniza com loucura.

Olho para os ponteiros,
Parece-me que andam para trás.
Minha percepção se corrompe
E o tempo conspira contra mim.

O sadismo de um suposto Deus,
Que apenas observa minha silenciosa tortura.
Sofro em língua estrangeira,
Ecos da memória vindo da realidade.

Como dói saber que acontecerá de novo,
Semana após semana,
Entregando-me à loucura
Que hoje, é meu ponto de equilíbrio.

Gabriel Vitor Tortejada

23 fevereiro, 2009

Inconstância no Refúgio

Naquela solidão quente e úmida,
Sentimentos completos de serenidade
Acumulavam-se no ar.

O sol batia quente,
Sensações inconstantes emergiam
Desse repleto e quieto limbo.

Seu coração batia em tom de poesia,
Mas, em severo mundo, não havia meios de escrevê-la.
Achaste, entretando.

Não sentia-se o mesmo,
Não procurava mais a escuridão,
Da dor, sentia-se liberto.

Deveria ser euforia do momento,
Conforto seria sua salvaguarda?
Até que na próxima,
Voltaria às suas musas e sua perdição.

Gabriel Vitor Tortejada

06 fevereiro, 2009

Na sarjeta

Vivemos nas esquinas imundas,
De um poço de ganância,
Vivemos à beira,
De algo que despreza.

Não reclamamos de nossa vida,
Muitos de nós nunca conheceram outra,
Outros escolheram essa.

Vivemos de dor e paixão,
Fome e desgraça,
Encontramos força para resistir,
Ao que parece impossível.

Não pedimos sua pena,
Seu dinheiro.
Pedimos sua compreensão.

Estamos aqui,
Porque alguém tem de estar.
Por mais que tentamos,
Não merecemos os objetivos que enfrentamos.

Às vezes é mais fácil se render,
Ao curso de nossa natureza,
Que para a raça humana,
Injustiça é a principal característica.

É mais fácil aceitar que somos o vírus,
Aquele que mata,
Sobrevive,
E sempre encontra uma maneira de se torturar.

Somos felizes do jeito que somos,
Não somos cegos,
Não vemos cores.

Se há algo de bom para se ver,
É que cada um de nós
Um dia irá morrer.

Gabriel Vitor Tortejada

08 janeiro, 2009

Reminder

Hoje decidi escrever algo. Não sei se é por causa da minha doença ou algo mais, mas resolvi que não gostaria de ser esquecido. Quero deixar uma história, algo meu. Normalmente dizem que uma pessoa atinge a imortalidade ao fazer algo notável, memorável. Essa é minha única tentativa, com lápis em punho e papel branco tento deixar alguma marca nessa minha história.

Admito que vivi mais do que eu e outros esperavam. Minha vida não teve altos e baixos, não teve grande história, mas posso citar algumas passagens que me deixaram com o coração na boca. 77 anos, quem acreditaria nessa idade para alguém que viveu na promiscuidade?

Já li muito na minha vida para dizer que a figura do pai geralmente é muito importante para esse tipo de história. Vou lhe falar sobre o meu, que fez um papel grande, mas não importante. Autoritário e ranzinza, brincalhão, quando estava sóbrio. Bêbado era rude e violento, me batia e violentava a minha mãe, porém, ela sempre dizia: “Não vou deixá-lo meu filho, a gente não escolhe quem ama.” Agente não escolhe quem ama... Pura besteira, eu acreditava.

Saí de casa aos 17 e um ano depois ele morreu. Não fui ao enterro. Mas voltando um pouco no tempo, vamos falar da minha promiscuidade. De meus vícios, quatro no total, mulheres, bebida, cigarro e ópio. Em que lugar eu vivo? Cabe à você julgar, não vou descrever lugares nem citar nomes, acho que assim a imaginação corre melhor. Comecei a beber com 14 anos, cigarro, com 16, ópio, 17. Sempre andei nos grupinhos dos descolados, dos caras legais, mas o que não dizem é que são os caras legais que fazem as piores coisas, e eles me levaram junto.

Acabara de sair de casa, estava me sentindo adulto, trabalhando em banco, morando sozinho. Nessa época me tornei um galanteador, o Casanova do meu grupo. Saia cada noite com uma mulher diferente, às vezes duas, as levava para a cama e dispensava depois. Chamavam-me de coração de pedra, gelado. Não ligava para ninguém, e assim que eu consegui subir na vida, não ligando e passando por cima de outros para conquistar meu dinheiro e prestígio.

Com 30 anos eu tinha tudo o que queria, casa, carro, dinheiro, mulheres. Meu dom de manipulação e sangue frio me deram muitos frutos. Mas com essa idade não havia aprendido nada, ainda era imaturo, a mesma mentalidade daquele garoto 13 anos atrás. Até que conheci Ela. A mulher mais apaixonantemente perversa que eu já havia visto. Eu posso até não ter créditos para dizer isso, mas ela era má. Eu me apaixonei por ela.

Soube conhecer, conquistar e amar. Tornei-me seu amante, e logo, seu marido. Sim, nos casamos. Tudo o que ela queria. Soube que ela teve amantes, não ligava, nada me interessava mais do que estar perto dela, aliás, também tinha minha cota. Até que uma situação específica me deu a sensação de um mau presságio. Em uma das minhas rotineiras idas à padaria de manhã, bem de manhãzinha, me deparo com um beco escuro e gritos vindos de lá. Prossigo com cautela para averiguar o que acontece, ando na sombra, quase invisível. Lá está uma mulher, semi despida, roupas rasgadas, lutando por liberdade nos braços de um homem que a dominava com uma faca. Lágrimas escorriam por aquele rosto, e lia bem a expressão em seus olhos: Pânico. Nojo. Total e completo nojo me toma e me faz vomitar. Vomito no chão, minhas pernas tremem e volto ao meu caminho em direção à padaria amaldiçoando a minha falta de coragem.

Noites e noites passei imaginando como seria se eu tivesse apartado o estupro, se eu tivesse gritado, feito algo. Sufocava-me em meu travesseiro, recusava carícias de minha mulher e minhas amantes. Estressava-me cada vez que via a conta do cartão de crédito, enlouquecia cada vez que via uma faca. Estava enlouquecendo.

Algo me trouxe a sanidade, temporária ao menos. Uma noite, casa vazia, um copo de conhaque e uma dose de arsênico. O plano era perfeito, uma morte rápida. Eu não agüentava mais a dor na consciência. Prestes a tomar o meu gole fatal o telefone toca, é o chefe de polícia. Minha esposa havia morrido.Pela primeira vez em anos chorei. Chorei até não poder mais, até não agüentar a mim mesmo. Joguei o copo contra a parede e desmaiei de sono por sobre a mesa, caçaria o desgraçado do amante que a espancara até a morte, o procuraria até o inferno.

Os próximos meses foram pura fúria. Contratei os melhores investigadores particulares, comprei as melhores pistolas de uso pessoal e principalmente, comprei um soco inglês que jurei que só tiraria da mão quando estivesse coberto por sangue, pelo sangue daquele que arrancou meu coração do peito.

Existem pessoas que não nascem com certos instintos. E certamente eu não havia nascido com homicídio em minhas veias, e só fui descobrir isso quando finalmente tirei o soco inglês de minhas mãos, cheio de sangue. Via o homem que odiava deitado no chão, à minha frente. Encoberto por seu próprio sangue, o homem respirava com dificuldade, quase se afogando em seus próprios fluidos. Minha arma estava apontada para sua cabeça, mas tudo o que eu podia ver era a expressão de pânico em seu rosto, as lágrimas de seus olhos azuis. Minhas pernas tremeram. Lembrei-me daquela mulher. Deixei a casa do homem e fui me embriagar em casa.

Há quem possa dizer que fui covarde por duas vezes. Na verdade não. Fui humano na primeira, deixei-me levar pelas emoções, permiti que o medo prevalecesse ao instinto. Na segunda não sei o que foi. Covardia não foi, humanidade também não pois pena foi uma coisa que não senti na frente dele. Posso ter sido covarde, não importa. Mas ainda me pergunto. E se eu tivesse ajudado a mulher do beco?

Gabriel Vitor Tortejada

21 dezembro, 2008

Jingle Bombs

Crianças correndo, brincando,
Sinto o vento em meu rosto,
A satisfação me guia,
O medo me corrói.

Ouço assovios cada vez mais fortes.
“Estão chegando mais perto.”
Digo a mim mesmo,
Até que sinto o maior assovio.

Aquele que é seguido por um clarão,
Por um enorme barulho,
Pelo desconfortante silêncio.

Não sinto nada,
Ouço um zumbido constante,
Não vejo nada,
Além de branco.

Aos poucos começo a ver,
Mas algo acompanha a visão,
Algo sutil,
Vem crescendo sutilmente,
Até me tomar por completo.

A dor é inebriante,
Me deixa tonto.
Sinto-me quente por debaixo.
“O que será?”
Eis que logo descubro,
Um rio rubro que flui por meu corpo.

Tento levantar-me,
Faltam-me pernas,
Tento me virar,
Falta-me um braço.

Olho para a destruição esperando meu fim,
Uma planície preta,
Estilhaços por lá e cá,
Pedaços por aqui e ali.

Um sorriso de ironia esboço aqui,
Uma lágrima de tristeza escorre ali,
A lembrança do que tinha permanece intacta,
O caminho ao infinito se aproxima sagaz,
O escuro me toma satisfeito,
Pela vida que não vivi.


Gabriel Vitor Tortejada

05 dezembro, 2008

É hora de amadurecer

Hoje, sexta-feira, acordei de luto. E esse sentimento se resume em apenas uma coisa, abrir mão de tudo o que eu estava habituado. Aqueles longos 11 anos de escola acabaram, as paredes estão se abrindo e não tenho mais onde me apoiar, há um mundo novo lá fora inteiro para mim.

Primeiramente achei que não iria ficar triste, mas o medo me inverteu isso de maneira extraordinária e me aproximou de algo que eu nunca havia sentido antes. O amor. Não qualquer amor, o amor incondicional. Antigamente olhava para as pessoas com desgosto, não gostava de pessoas. Mas é impressionante como podemos nos apegar com alguém que nem ao menos conversávamos.

O medo me lembrou que já tenho 17 anos e desperdicei grande parte de minha vida em besteiras, agora olho para todos na rua com certa afeição. Que invenção fantástica do acaso que somos, não é mesmo? Sempre fui, como dizemos, o pentelho. As pessoas tinham que aprender a gostar de mim. Vejo agora que tenho a necessidade de me tornar um novo eu, finalmente algo perto do que podemos chamar de um homem.

Essa sensação de confusão, medo, insegurança e amor inebriante me segue até agora, não consigo exatamente descrever como me sinto. Só sei algo: É confuso. Digo que não afetará a minha boa e velha maneira pessimista de ver o mundo, sei quais são os instintos do ser humano, mas existem alguns que se tornam maravilhosos e outros o nosso vício. Amigos são pessoas que levam consigo nossos costumes, nossos hábitos e sentimentos. E nós, os deles.

Muitos daqueles jovens com quem estudei os piores três anos da minha vida, no colégio, e os melhores três, como pessoa, sei que não verei mais, e por isso meu luto. Mas posso dizer que vou levá-los comigo pelo resto da minha vida, assim como me levarão também. Em grande parte, esses me tornaram uma pessoa melhor e, sem eles, pretendo melhorar da mesma maneira, me apegando ao que me ensinaram.

16 novembro, 2008

Um dia falarei com Deus,
O Deus dos cristãos, dos judeus,
Islâmicos, Hindus, etc.
Um dia falarei com o meu Deus.

Um dia direi a Ele o meu caminho,
Não o caminho certo,
Mas aquele que eu fiz.

Um dia provarei o seu sadismo,
Sua hipocrisia, sua infantilidade
E sua indiferença.

Nesse dia provarei da minha eternidade,
Da minha certeza,
E de minha escuridão.

Refletirei,
Nem que seja no meu último instante,
Sobre o que vivi.
E tenho certeza,
Não me arrependerei de nada.

Prosarei eternamente,
Flertarei com o futuro,
Não mais existirei mesmo.

Vou conversar com o diabo,
Aquele ser extrovertido, charmoso,
Aquele que não passa de uma parte de mim,
Aquele que não nega sua maldade,
Aquele que o que tem de malicioso,
Não tem de hipócrita.

Falarei a Javé:
Eu estava certo,
Tu não vives,
Não és diferente de mim.
Um ser morto e inexistente.

Gabriel Vitor Tortejada


P.S.: Achei que está faltando algo... sugestões?
P.P.S.:Não vou me converterei à sua religião meu filho, desista. Sim sim, já fui excomungado, fiz pacto com o demônio e jogamos cartas toda a sexta-feira. Algo mais?

10 novembro, 2008

Eu, eu mesmo, e talvez um dia, outro.

Cansei de falar sobre meus pensamentos,
E pensar sobre meus sentimentos.
Não quero mais ouvir, cantar,
Nem lamentar o que feito, já devia estar.

Mudar é algo difícil de fazer,
Impossível de se prever.
Meus olhos vêem,
O que o coração morto, não sente.
O que a alma, inexistente, não mente.

Ah, o toque.
Eu privilegio o toque.
Toque sutil da pele macia.
O toque que anseio,
Aquele que de tão perto,
Mantenho-me tão longe.

Não desejo o carnal,
Também não o dispenso.
Não reprimo,
Amor não tem medida,
Não tem jeito.
Nem sei se existe em meu peito.

Jeito cruel de ser,
Aquele aperto no peito por não dizer,
Aquele frio na barriga por tentar,
E a decepção por desistir.

Esse sou eu?
O fracassado que tantas vezes escrevo?
Que tantas vezes questiono?
E em nenhuma delas mudo?

Quero uma paixão,
Aquela que dure.
Algo que me tire da beira do abismo,
Me levante da sombra,
Antes que cedo ou tarde,
Eu enlouqueça.

Gabriel Vitor Tortejada

06 novembro, 2008

Aquela Poesia

O escorpião arde em minha solidão,
O arrependimento bate e vai embora,
Penso nas coisas que fiz e farei.
Nas escolhas que virão.

Cito de novo o herói,
Aquele único que salvará a todos,
Aquele único que está em todos.

O que é um herói?
O invulnerável ser capaz de atos sobre-humanos?
Ou aquele ser que nada faz a não ser nos inspirar?
Será o homem que veio de outro planeta?
Ou o exemplo do maior humano que pode existir?

De onde pode vir um herói senão de um instinto?
Sobrevivência,
Amor.
Ah, o amor.
Faz-nos fazer loucuras.

Loucuras que remetem ao passado.
Loucuras que corrigem o presente,
E escrevem o futuro.

Não me arrependerei do que disse ou fiz.
De que adianta?
As escolhas foram feitas,
Certas ou erradas,
Foram feitas.

Somos sempre capazes de escolher,
Sempre temos escolha.
Corretas, equivocadas?
Isso é ponto de vista.

O que importa é que temos escolha,
E essas escolhas mudam,
Essas escolhas aconselham,
Essas escolhas nos tornam, nada mais que
Humanos.

Gabriel Vitor Tortejada

25 outubro, 2008

O êxtase dos anjos

Escrevo em nome daquela,
Que de acordo com um de meus mestres,
É uma mulher sem razão.

Aquela que sente o que sinto,
Que quer o que quero.
Aquela que de cega nada tem,
Mas ainda não vê.

Que anseia o fogo que sentes,
Mas não sabe o que vê.
Quer falta de ar, dor,
Daquelas que só o rubro dá.

A que me traz certezas e dúvidas,
Diz-me de razão e paixão.
Uma de minhas musas,
Aquela que me acalma.

Mata e descobre minh’alma,
Destrói meus conceitos,
Desbanca minhas palavras,
Queima-me de calor.

A insegurança bate outra vez,
Será essa a sensação que ela sente?
Será isso que vai me tirar do lugar?
Será que isso me tirará do conforto de minha razão?

O vazio me mostra o que sinto e vejo,
O vazio me mostra o que sou e o que és,
O vazio me mostra o que devo fazer, e
O vazio me mostra que simplesmente não farei.

Quem confia no vazio?

Gabriel Vitor Tortejada

23 outubro, 2008

Aniversário

Seguindo a estrutura da blogueira Alice[vide em blogs favoritos], vou escrever-lhes um pouco sobre hoje.

Eis o dia que eu odeio, aquele em que todas as pessoas hipócritas que falam comigo 3 vezes ao ano resolvem lembrar da minha pessoa. Parabéns para cá, parabéns para lá. Por que não vão todos para o inferno com essa tradiçãozinha católica? Faltei na escola, não fiz nada em casa e ainda briguei com a minha mãe... Realmente é um dia normal com seu toques de chatice. O que queria já consegui, o esperado presente dos pais. Agora, me deixem em paz inferno!

22 outubro, 2008

Ode à Perdição

Busco incansavelmente aquela poesia,
Procuro versos que sei que não farão sentido,
Sigo conselhos do mestre que tanto li,
E aprendi a não gostar.

Escrevo estrofes em branco,
Que nada me dirão.
Procuro a alma
Que a tanto sei não ter mais.

Rejeito o Deus dos Arcades,
Corro em busca do herói de Nietzsche,
Fujo do passado de Camões
E escrevo o futuro com minhas mãos.

Percorro tanto meu caminho
Através de memórias e sons,
Desejo a esperança,
Que um dia fez uma flor brotar no asfalto.

Não quero interpretações
De homens hipócritas e ignorantes.
Detesto a literatura dos que se apossam de poemas.
Esse é meu poema e de todos,
Individualmente.

Existencialista, realista?
Chega de rótulos e nomes,
Sem números e critérios.
Sem leis e análises.
Quero permanecer incompreensível.

Choro por uma utopia.
Àquela na qual não torço mais o coração
Com crianças em prantos de fome,
Animais perdidos e maltratados
E assassinatos de loucos que vêem o mesmo que eu.

Casos sociais e econômicos não me interessam,
Pessoas me intrigam.
Me escondo no mundo dos clowns e da comédia
Procurando entender outros,
E me ocultando a todo o custo.

Gabriel Vitor Tortejada

15 outubro, 2008

Dramaturgia Manuscrita

O que uma carta pode ser?
Demonstração de afeto,
Descrição de sentimentos,
Até lugares.

O que ela pode dizer?
Coisas bonitas,
Te mostrar o mundo
Apenas em um piscar.

Uma folha branca, azul,
Pedaço de papel, guardanapo.
O que é uma carta senão uma alma
Sedenta por libertação e compreensão.

O que é a alma senão uma carta,
Escrita de todo o coração.
As palavras fluem,
O corpo sente.

Nessa carta o mundo está presente,
O calor de quem sente
E nela, a alma do penitente.


Gabriel Vitor Tortejada
créditos: Mariana Marin Ramos

22 setembro, 2008

Monólogo da Cenoura

Eu gosto de cenouras. Não pelo fato de serem facilmente comidas, mas até por serem um tanto quanto doces. Gosto até quando se põe temperos nelas, muda um pouco, mas não perdem o seu gosto único, apenas o ressalta. Gosto também do barulho que fazem quando mordemos, a “crocância”.
De certa forma ela me influencia muito e, não é a toa que minha cor favorita é laranja. Cenouras me fazem lembrar da mamãe, de como ela acordava todo o dia de manhã para colhê-las, me fazem lembrar de papai e suas piadas obscenas sobre esse tão sutil alimento.
Tem horas que me dá vontade de chorar e logo corro para a horta e como uma cenoura, para lembrar-me dos outros, como eram e como foram embora. Na solidão tudo se ameniza com uma bela e boa cenoura. Crua, temperada, cozida, assada... Hum... Assada, assada me faz lembrar do meu irmão, como gostava de cenoura assada.
A cenoura me faz perguntar o porquê de todos terem ido embora, será Deus? Enquanto ando pela cidade, comendo minha cenoura, olho para as casas vazias e imagino como posso ter sido o único a ficar? Imagino ainda como sobrevivi todos esses anos? E o pior, será que gosto mesmo de cenoura?

Gabriel Vitor Tortejada

10 setembro, 2008

Nos campos abertos de asfalto

Aqui, flores do campo não cheiram mais,
Não há mais aquele céu estrelado.
A brisa limpa? Não mais.
A troca do esplendor azul,
Pelo amargo cinza.

Sem mais amor nos corações;
Só desprezo e desgosto.
Esperança? Não mais.
Apenas almas doentes;
Em um ritual rotineiro e ilusório.

Dor sem igual demonstrada,
Pelos rostos pálidos e amargos,
O cansaço dos sedentos por liberdade,
O ódio dos que procuram quietude.
Buzinas, alarmes, apitos, músicas, loucura!

Cada um vivendo uma morte lenta,
Em meio à uma selva de concreto e metal,
Procurando sempre o descanso eterno,
Então lembra-se que vive,
E foge a todo custo.

Na página em branco da minha alma,
Escrevo o que fui, sou e sempre serei;
O que foi, és e serás.
Escrevo o que nunca vai se apagar:
Que uma vida digna de nossa morte,
Nunca vamos alcançar.

Gabriel Vitor Tortejada

04 setembro, 2008

Na sombra da morte

Algo inevitável,
O último suspiro em busca
Do descanso eterno.

Para quê chorar por quem se foi,
Gostarias que chorassem por ti?
Gostarias de ver quem gostas sofrendo?

Não achas egoísmo
Não querer que alguém se liberte de ti?
Independente de credo,
Alguém foi para um lugar melhor.

Não tentes adivinhar, descobrir.
Já há o suficiente nesta vida para desvendar,
Por que privar-se daquele frio na barriga,
Da ansiedade pelo desconhecido?

Levante-se alma dolente,
Apesar de doloroso és uma lição,
Aquela que todos devemos aprender,
Após cativar, descativar.

Gabriel Vitor Tortejada

24 agosto, 2008

Le chaos

Surgi nesse mundo de trevas,
Cresci num ambiente de ordem.
Uma ordem forçada.
Um cenário escondido na realidade.

Pela dor da rotina,
Pelo cansaço no normal.
O humano procura algo que não é
Uma organização falsa e incomum.

Pelo caos se sabe,
Se cria, se destrói.
Esse é o início e o fim.
É o criador e o algoz.

Gabriel Vitor Tortejada

20 agosto, 2008

Fixação

Digo o que me cativas,
Tua graça,
Teu jeito,
Tua maneira de falar
O que exatamente quero ouvir.

Sobre dias a conversar
E noites a filosofar.
No verso
Ou na prosa
Estás lá para ver.

És a beleza teu fato marcante?
Mas que beleza estaria falando?
A verdade em seus olhos;
A carícia de tuas palavras;
Ou a doçura de teu sorriso?

Como cativar algo novo,
Marcante e intimidante?
Como conquistar aquele coração
Tão misterioso
Que tanto anseia a libertação.

Gabriel Vitor Tortejada

01 agosto, 2008

Às vezes na noite

Numa noite qualquer, num lugar obscuro o poeta escreve seus lamentos e lamúrias sem nenhum pudor. Os amores fracassados, dizeres desperdiçados e fazeres fracassados. Enquanto ele se limita em seu dito universo particular, pessoas afora fazem diversas coisas que nenhuma mente sozinha seria capaz de imaginar. Sendo, que a maioria, estaria dormindo.
Tristes histórias de um coração desmantelado são contadas por dedos hábeis e uma mente ávida. Um quarto pequeno, apagado, quase sufocador tinha apenas um foco de luz. Chama amarelada, dançante aguçava a imaginação daquele mero pensador. Os sentimentos provocados, as sensações. Ódio, amor, êxtase, medo, agonia. Tudo misturado e sentido em uma simples idealização do que acontece no profundo id deste ser.
De longe ouve-se onomatopéias seguidas em um ritmo interminável, criadas por um objeto antiquado coberto por teclas e cheio de folhas de papel. Um barulho quase enlouquecedor. Parece que o ritmo das tecladas aumenta de acordo com as batidas do coração deste inepto ser. E no clímax desta sinfonia, quando a seqüência parece não poder ir mais rápido há uma parada súbita, seguida por apenas mais três sons, que indicam três letras, no rodapé da página, quase escondida, uma palavra: Fim.
Agora, no fim dessa história, pergunto à quem lê. O que é real?


Gabriel Vitor Tortejada

22 julho, 2008

Fala-me de amor,
Que te falo de ódio.
De maneira que os dois
Parecidos são.

Fala-me de amor,
Que te falo de ilusão.
De maneira que os dois
Sejam o mesmo.

Fala-me de amor,
Que te falo de sofrimento.
De maneira que um
Se torna o outro.

Fala-me de amor,
Que te falo de felicidade.
De maneira que os dois
Nunca se encontrarão.


Gabriel Vitor Tortejada

21 julho, 2008

Oh! Amor que me persegue,
Palavra maldita cujo significado,
Nem ao menos o maior amante sabe.

Oh! Pessoa da qual gosto tanto
Será amor isso que sinto?
Essa profunda admiração divina?

Mas se concordar,
Estarei jogando fora tudo que acredito.
Mas o que é a crença?
Senão idéias impostas por uma sociedade rígida?

Mais que amigo desejo ser,
Mas será isso o que ela quer?
Insegurança, medo, atração, fixação.
O que diabos acontece comigo?


Gabriel Vitor Tortejada

08 julho, 2008

O Lamento dos Fracassados

Como pode ser real essa dor que sinto,
Se cores me agoniam,
Se sorrisos me entristecem?

Como posso me dizer humano,
Se invejo e ainda assim desejo bem?

Como posso tornar real
Se a dor se oculta
Se o sentimento se esconde?

Como posso aceitar fácil,
A justiça dos tolos, e o julgamento dos fúteis?

Como posso ficar calado,
Se a dor me sufoca,
Se a corda me enforca?

Como posso aprender com um erro,
Se sou punido em dobro?

Como ainda posso viver,
Se me sinto fracassado,
Se me sinto arrasado?

Se errei, sinto muito;
Se julguei, me arrependo;
Não chorei, mas desejo;
Pois a punição castigou,
O que não se tinha mais a castigar.


Gabriel Vitor Tortejada